Lendas - 6º e 7º ano
A
Lenda da Iara
Há muito tempo, os povos indígenas contavam que existia
uma jovem guerreira de rara beleza e grande coragem. Sua habilidade despertou a
inveja dos próprios irmãos, que tentaram matá-la. Ao se defender, ela acabou
matando-os. Como castigo, seu pai a lançou em um rio, acreditando que ela
morreria. No entanto, os espíritos das águas a salvaram e a transformaram na
Iara, a Senhora das Águas, também
conhecida como Mãe-d'Água.
Desde então, ela passou a viver nas profundezas dos rios
da Amazônia. Nas noites em que a névoa cobre o rio e o silêncio toma conta da
floresta, a Iara surge lentamente entre as águas. Da cintura para cima, parece
uma bela mulher de longos cabelos negros e olhos brilhantes; da cintura para
baixo, possui a cauda de um enorme peixe. Seu canto é tão bonito e misterioso
que encanta pescadores e viajantes que passam pelas margens.
Hipnotizados pela melodia, eles caminham lentamente em
direção ao rio, como se estivessem sonhando. Quando percebem o perigo, a
correnteza já os envolve e os arrasta para o fundo escuro das águas. Alguns
dizem que eles morrem afogados. Outros acreditam que permanecem vivos,
enfeitiçados para sempre, vivendo ao lado da Iara em seu reino escondido no
fundo do rio.
Na
manhã seguinte, restam apenas um barco vazio, um remo abandonado ou pegadas que
terminam misteriosamente na margem. Por isso, os moradores mais antigos
aconselham que ninguém siga um canto vindo das águas durante a noite. Dizem
que, quando o rio fica silencioso demais, a Iara está à procura de uma nova
vítima. Quem escuta sua voz pode nunca mais voltar para casa.
A Lenda do Boto-Rosa
Há muito tempo, os povos indígenas
contavam que, nas profundezas dos rios da Amazônia, vivia um boto encantado
capaz de se transformar em um belo rapaz. Dizem que, principalmente nas noites
de lua cheia, ele deixava as águas usando roupas brancas elegantes e um chapéu
que jamais tirava da cabeça, pois escondia o pequeno orifício por onde
respirava quando estava em sua verdadeira forma.
Ao chegar às festas das comunidades
ribeirinhas, o misterioso visitante chamava a atenção de todos. Educado,
simpático e excelente dançarino, ele conquistava facilmente a confiança das
pessoas. Seu verdadeiro objetivo, porém, era encantar as moças da região. Com
palavras gentis e um sorriso irresistível, convencia alguma delas a
acompanhá-lo até a margem do rio, onde ninguém mais pudesse vê-los.
Antes do amanhecer, o rapaz
precisava voltar às águas. Ao mergulhar no rio, recuperava sua verdadeira
forma: um grande boto-cor-de-rosa, desaparecendo silenciosamente nas
profundezas. Na manhã seguinte, ninguém encontrava o elegante visitante.
Restavam apenas pegadas que terminavam misteriosamente na beira do rio,
aumentando ainda mais o mistério.
Por causa dessa lenda, tornou-se
comum dizer que crianças de pai desconhecido eram "filhos do boto", pois se acreditava que o encantado era o responsável
por esses encontros misteriosos. Até hoje, os moradores mais antigos aconselham
que ninguém aceite o convite de um estranho elegante durante uma festa. Dizem
que, quando a lua cheia ilumina o rio, o boto pode estar procurando sua próxima
vítima.
A Lenda do Curupira
Muito antes de as cidades ocuparem
parte das florestas brasileiras, os povos indígenas já contavam histórias sobre
o Curupira, o misterioso protetor das matas e dos animais. Pequeno,
forte e extremamente veloz, ele possui cabelos vermelhos como fogo e os pés
virados para trás. Por causa disso, suas pegadas apontam para a direção
contrária daquela por onde realmente passou, confundindo qualquer pessoa que
tente segui-lo.
O Curupira costuma perseguir
caçadores que matam animais por crueldade e pessoas que derrubam árvores sem
necessidade. Quando percebe a presença de um invasor, solta assobios
assustadores, imita sons e até vozes humanas para atraí-lo para lugares distantes.
Enganados pelas pegadas e pelos ruídos misteriosos, muitos caminham durante
horas e acabam se perdendo cada vez mais no interior da floresta.
Alguns caçadores contam que ouviram
galhos quebrando e passos seguindo seus movimentos, embora não houvesse ninguém
por perto. Outros juram ter visto uma pequena figura de cabelos vermelhos
correndo entre as árvores com uma velocidade impossível para um ser humano.
Quanto mais tentavam encontrar o caminho de volta, mais a mata parecia mudar ao
seu redor, fazendo-os andar em círculos até perderem completamente a direção.
Apesar das histórias assustadoras,
acredita-se que o Curupira não persegue aqueles que respeitam a natureza. Seus
castigos são reservados principalmente aos que destroem a mata ou maltratam os
animais. Por isso, quando alguém encontra pegadas estranhas ou escuta um
assobio misterioso vindo do meio da floresta, é melhor não continuar o caminho,
pois o antigo guardião da mata pode estar observando entre as árvores.
A Lenda da Cuca
Muito antes de se tornar uma
personagem conhecida do folclore brasileiro, histórias sobre uma criatura
assustadora chamada Coca ou Coco já eram contadas em Portugal para
amedrontar crianças que não queriam dormir. Com o passar do tempo, a lenda
chegou ao Brasil e ganhou novas características. Aqui, a Cuca passou a ser
descrita como uma velha bruxa de aparência monstruosa e, mais tarde, tornou-se
muito conhecida com corpo semelhante ao de um jacaré, cabelos compridos e
grandes garras.
Segundo a lenda, a Cuca dorme muito
pouco e passa as noites procurando crianças desobedientes ou aquelas que
permanecem acordadas até tarde. Astuta e poderosa, ela conhece feitiços,
prepara poções e consegue surgir quando menos se espera. Algumas histórias
dizem que ela coloca as crianças dentro de um grande saco e as leva para seu
esconderijo, em algum lugar distante e sombrio.
Sua chegada pode ser anunciada por
um ruído no quintal, uma sombra diante da janela ou passos que desaparecem
misteriosamente no escuro. Por isso, durante muito tempo, os adultos usaram
histórias sobre a Cuca para convencer as crianças a voltar para casa e dormir.
Seu nome também aparece em antigas cantigas de ninar, que alertavam que a
criatura poderia vir buscar quem continuasse acordado.
Com o passar das gerações, a Cuca
tornou-se uma das figuras mais assustadoras do folclore brasileiro. Mesmo que
sua aparência mude de uma história para outra, permanece a mesma ameaça: uma
criatura que ronda a noite à procura de crianças. Por isso, quando tudo está
silencioso e algum barulho estranho surge do lado de fora, talvez seja melhor
não abrir a janela para descobrir o que está escondido na escuridão.
A Lenda do Saci-Pererê
No meio das florestas brasileiras,
redemoinhos de vento que surgem de repente são vistos por muitos como sinal da
presença do Saci-Pererê, um pequeno ser negro de uma perna só, muito esperto e
brincalhão, que usa um gorro vermelho encantado e fuma cachimbo. Segundo algumas
versões da lenda, cada Saci nasce dentro de um gomo de bambu, onde permanece
durante sete anos antes de sair para o mundo e começar suas travessuras.
O Saci gosta de assustar viajantes e
pregar peças nas pessoas. Ele esconde objetos, apaga o fogo, azeda o leite,
derrama o sal e faz pequenos acontecimentos inexplicáveis dentro das casas. Nas
fazendas, também assusta os animais e costuma trançar a crina dos cavalos
durante a madrugada. Quando alguém tenta encontrá-lo, ele desaparece
rapidamente e pode surgir novamente dentro de um redemoinho.
Dizem que é possível capturar um
Saci jogando uma peneira sobre o redemoinho e, depois, retirando seu gorro
vermelho, onde estaria parte de seu poder. Algumas histórias afirmam que ele
pode ser aprisionado dentro de uma garrafa fechada com uma rolha marcada com
uma cruz. Mesmo preso, porém, o Saci continua procurando uma oportunidade para
enganar seu captor e recuperar a liberdade.
A vida do Saci também é cercada de
mistério. Segundo algumas versões populares, ele vive setenta e sete anos e,
quando chega ao fim de sua existência, não morre como os seres humanos:
transforma-se em um cogumelo venenoso conhecido como orelha-de-pau. Assim
termina seu longo tempo de travessuras, embora, quando um redemoinho surge
inesperadamente no meio de um caminho, muita gente ainda prefira manter
distância, pois outro Saci pode estar escondido dentro dele.
A Lenda da Mula sem Cabeça
Nas noites mais escuras,
principalmente entre a quinta e a sexta-feira, moradores de antigos povoados
brasileiros contavam ouvir um galope desesperado atravessando estradas e campos
desertos. O som seria provocado pela Mula sem Cabeça, uma criatura amaldiçoada
com corpo de mula e uma grande chama de fogo no lugar da cabeça. Suas
ferraduras batiam com tanta força no chão que o barulho podia ser ouvido de
muito longe.
Segundo uma das versões mais
conhecidas da lenda, a criatura teria sido uma mulher castigada por manter um
relacionamento amoroso proibido com um padre. Durante a noite, ela se
transformava na terrível Mula sem Cabeça e era obrigada a correr sem descanso,
passando por sete povoados antes de a maldição terminar. Por onde passava,
assustava animais e pessoas com seu galope e seus sons aterrorizantes.
Quem encontrasse a criatura deveria
sair rapidamente de seu caminho, pois ela poderia perseguir qualquer pessoa que
cruzasse sua passagem. Algumas versões afirmam que a maldição poderia ser
quebrada se alguém tivesse coragem suficiente para retirar o freio de ferro que
carregava ou feri-la levemente com um objeto pontiagudo até fazer surgir uma
gota de sangue. Nesse instante, o fogo desapareceria e a criatura voltaria à
forma humana.
Antes do amanhecer, mesmo que
ninguém quebrasse o encantamento, a Mula sem Cabeça retornava à aparência de
mulher e guardava em segredo sua verdadeira identidade. Por isso, quando o som
de ferraduras ecoava pelas estradas durante a madrugada, muitos fechavam portas
e janelas e esperavam o dia nascer. Afinal, qualquer mulher do povoado poderia
carregar uma maldição que só se revelava quando todos estavam dormindo.