O médico e o monstro

 

Capítulo 1 – O Homem Misterioso da Rua Escura

A névoa cobria Londres como um véu espesso de silêncio. O frio cortava as esquinas, e o som distante das carruagens misturava-se ao eco úmido dos passos de quem se aventurava pelas ruas antes do amanhecer. Era uma cidade dividida — metade elegância, metade sombra. E em meio a essa penumbra, uma história começou a ganhar corpo, contada em murmúrios e olhares desconfiados.

O Sr. Utterson, advogado de hábitos austeros e rosto pálido como o papel de seus contratos, caminhava ao lado de seu primo, Richard Enfield. Faziam, como de costume, seu passeio dominical sem pressa, trocando poucas palavras, como homens que já disseram tudo o que precisavam dizer na vida. Até que, ao dobrar uma esquina, Enfield parou de súbito diante de uma velha porta de madeira.

Era uma porta sem beleza — escurecida pelo tempo, com a pintura descascada e o ferro enferrujado. Tinha algo de incômodo, como se escondesse segredos de muitos anos. E talvez escondesse mesmo.

— Essa porta — murmurou Enfield, fixando o olhar na fechadura — me lembra de uma história... uma história que preferia não ter visto.

Utterson, curioso, levantou uma sobrancelha.

— Uma história? A respeito desta casa?

Enfield respirou fundo, como quem hesita em tocar um assunto que o persegue.

— Sim. Há alguns meses, quando a cidade ainda dormia e a lua parecia morta no céu, vi um homem — baixo, disforme, com um andar que me causou repulsa instantânea — cruzar esta rua apressadamente. Ele se chocou com uma garotinha que vinha correndo e... — a voz de Enfield falhou — e a pisoteou, como se ela fosse apenas um obstáculo.

Utterson empalideceu.

— E ninguém o deteve?

— Oh, ele foi detido. Eu mesmo o segurei. E chamei a família da menina. O homem não se defendeu, apenas olhou para mim com uma expressão que jamais esquecerei. Não era fúria, nem medo — era algo que me fez sentir sujo, como se tivesse visto o próprio pecado tomar forma.

A história parecia crescer no ar frio, como se as paredes da rua se inclinassem para ouvir.

— Para evitar escândalo, — continuou Enfield — o homem se ofereceu para pagar à família. Entrou por aquela porta, desapareceu por alguns minutos e retornou com um cheque. Um cheque de valor alto... e assinado por um nome conhecido: Dr. Henry Jekyll.

Utterson empalideceu mais uma vez.

— Jekyll? Meu velho amigo?

— O próprio. Foi quando comecei a suspeitar. O homem, o monstro, o que quer que fosse — dizia chamar-se Hyde. Sr. Edward Hyde. Mas o cheque... era legítimo. E desde então me pergunto: que ligação pode existir entre um homem de bem como o Dr. Jekyll e uma criatura capaz de tal crueldade?

O vento soprou, abrindo a porta velha apenas o suficiente para emitir um rangido que fez os dois se entreolharem.
Utterson sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Havia algo ali — algo que escapava à lógica, como se aquela casa, aquela porta e aquele nome formassem um enigma impossível de resolver.

Enquanto se afastavam, a neblina pareceu engolir o local, e o advogado lançou um último olhar para trás. Juraria ter visto uma sombra mover-se por trás da janela apagada. Um vulto pequeno, inquieto... observando.

Naquela noite, já em seu escritório, Utterson não conseguiu dormir. O nome Hyde ecoava em sua mente como um sussurro antigo. Abriu a gaveta da escrivaninha, retirou um testamento e leu-o pela centésima vez:

“Em caso de minha morte ou desaparecimento inexplicável, deixo todos os meus bens a Edward Hyde.”

O advogado fechou o documento com as mãos trêmulas. Lá fora, a cidade dormia sob a névoa, mas algo acordava — algo que não era inteiramente humano.

Capítulo 2 – O Testamento que Ninguém Entende

Durante dias, o Sr. Utterson não conseguiu se libertar do nome Edward Hyde.
Era como um eco persistente dentro de sua cabeça, um som que o perseguia mesmo quando tentava pensar em outra coisa. À noite, sonhava com aquela porta velha, com a névoa engolindo a rua, e com um vulto que se movia por trás das janelas apagadas. Sempre acordava suando frio — e com a sensação de que alguém o observava no escuro.

Em sua escrivaninha, entre papéis e livros de leis, repousava o testamento de Dr. Henry Jekyll, um documento que agora parecia envenenar o ar de seu escritório.
Utterson o abriu mais uma vez, com o mesmo desconforto de quem toca em algo profano.

“Em caso de minha morte — ou de meu desaparecimento inexplicável — deixo todos os meus bens, propriedades e direitos ao meu amigo Edward Hyde.”

Aquela frase o fazia estremecer.
Jekyll, médico respeitado, de fama ilibada, amado pelos pobres e admirado pelos cientistas, deixava tudo... para um estranho que pisoteava crianças nas ruas de madrugada.

Utterson se levantou e andou de um lado a outro, tentando organizar os pensamentos.
Sabia que Jekyll não era tolo. Havia algo por trás daquelas palavras — algo mais profundo, talvez perigoso.
E, por instinto, o advogado sentiu medo.

No dia seguinte, procurou Lanyon, velho amigo em comum dos dois. O Dr. Lanyon, homem de aparência forte e olhar direto, o recebeu com certa impaciência.

— Henry Jekyll? — repetiu, ao ouvir o nome. — Há tempos não o vejo. Discutimos há alguns meses sobre certas... teorias que ele andava perseguindo. Experimentos tolos, quase heréticos. Desde então, ele se afastou de mim.

— E o nome Edward Hyde? — perguntou Utterson.

Lanyon o fitou por um momento, intrigado.
— Nunca ouvi falar. Mas se há alguém com esse nome próximo de Jekyll, garanto que não é boa companhia.

Essas palavras ficaram ecoando na mente do advogado enquanto caminhava pela cidade. O crepúsculo se instalava, e a névoa rastejava como fumaça sobre o chão de pedra. Utterson sentia um impulso estranho, quase irracional: encontrar Hyde.

Durante dias, seguiu discretamente os passos que Enfield havia descrito. As ruas pobres, o beco sombrio, a porta sem graça... até que, certa noite, viu alguém surgir da névoa. Baixo, de movimentos rápidos, vestindo um sobretudo escuro. O rosto era... difícil de descrever. Não havia nada de monstruoso em suas feições — e ainda assim, havia algo de errado. Como se os traços não se encaixassem, como se a própria natureza tivesse hesitado ao criá-lo.

Utterson aproximou-se, firme.
— O senhor é o Sr. Hyde?

O homem se virou lentamente. O olhar que lançou parecia atravessar a alma.
— Sim. — Sua voz era áspera, metálica, e soava quase como um rosnado. — E quem pergunta?

— Sou Utterson, advogado do Dr. Jekyll.

Por um instante, Hyde pareceu desconcertado. Depois, um sorriso torto lhe riscou o rosto.
— Ah... então já ouviu falar de mim. — E riu. Um riso seco, breve, sem humor. — Diga a ele que não precisa se preocupar. O doutor sabe cuidar dos próprios assuntos.

Quando passou por Hyde, o advogado recuou sem perceber. Sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe a espinha, como se tivesse tocado algo impuro.
Olhou para trás — e Hyde já havia desaparecido, engolido pela neblina.

Naquela noite, Utterson foi direto à casa de Jekyll. O mordomo o recebeu, visivelmente perturbado.
— O doutor não está, senhor. Saiu há dias e deixou ordens para não ser incomodado.

Utterson caminhou até o portão, hesitante, e olhou para o alto da casa. As janelas estavam escuras.
Mas ele teve a impressão — a forte impressão — de ver uma luz mover-se no andar do laboratório.
E uma sombra, fugaz, passou diante da vidraça.

De volta ao seu escritório, o advogado trancou a porta e permaneceu por horas olhando o testamento.
A chama da vela tremulava, projetando sombras nas paredes.
De repente, teve a sensação nítida de ouvir passos — lentos, pesados — do lado de fora.
Foi até a janela e nada viu além da névoa densa.

Mas juraria ter sentido o cheiro de enxofre.

Capítulo 3 – O Banquete e o Sorriso de Jekyll

O inverno londrino parecia não terminar nunca. A neblina descia espessa sobre as ruas, abafando o som das carruagens e transformando as lâmpadas a gás em pequenos pontos amarelos, tremendo na escuridão.
Já fazia semanas que Utterson não via o Dr. Jekyll. O advogado tentava convencer a si mesmo de que o amigo apenas viajara — mas, dentro de si, sabia que havia algo errado.

Certa manhã, uma carta chegou à sua casa. A caligrafia era elegante, firme, sem sinal de pressa:

“Meu caro Utterson,
não se preocupe comigo. Tenho trabalhado demais e preciso de algum recolhimento. Venha jantar comigo na próxima quinta. Preciso ver um rosto amigo.
— H. J.”

A notícia aliviou o advogado, ainda que o convite soasse estranho. Quinta-feira chegou com o mesmo ar pesado de sempre, o céu cinzento e a cidade adormecida sob a névoa.

A casa de Jekyll estava iluminada e cheirava a vinho e madeira antiga. Os criados, discretos, pareciam aliviados por ver o patrão mais calmo. Utterson foi recebido no salão principal: o doutor o aguardava diante da lareira, com um sorriso largo, quase forçado demais.

— Meu caro Utterson! — disse Jekyll, abrindo os braços. — Que prazer tê-lo aqui novamente! Preciso de companhia sensata, antes que a solidão me enlouqueça.

Utterson notou algo diferente. O rosto do médico estava mais magro, as olheiras fundas, o olhar inquieto — mas o sorriso insistia, como se ele quisesse provar que tudo estava bem.

Durante o jantar, conversaram sobre assuntos banais. Jekyll falava com animação, gesticulava, servia o vinho, mas havia algo em sua voz — uma vibração tensa, um leve tremor.
De repente, Utterson tocou no assunto que o perseguia.

— Henry... — disse ele, baixando o tom — precisamos falar sobre o seu testamento.

O sorriso de Jekyll desapareceu lentamente, como uma vela apagando-se.
— Ah, o testamento outra vez. — Ele suspirou e olhou fixamente para a lareira. — Já lhe pedi que não se preocupasse com isso, meu amigo.

— Não me preocupar? — retrucou Utterson, contido. — Você deixou tudo o que possui para um homem que mal conhecemos. Um homem perigoso. Um homem que causa horror a todos que o encontram.

O médico virou-se devagar.
— Cuidado com suas palavras, Utterson. O senhor Hyde tem um direito sobre mim que não posso explicar.

O advogado inclinou-se para a frente.
— Está sendo chantageado por ele? Diga a verdade.

Jekyll riu, mas foi um riso curto, amargo.
— Não. Não é isso. Acredite, posso me livrar dele quando quiser.

— Então por que não o faz?

O doutor hesitou.
— Porque às vezes... — sua voz falhou — às vezes o homem que mais desprezamos também é o que melhor nos compreende.

O silêncio caiu pesado sobre o salão. Apenas o estalar da lenha quebrava a quietude. Utterson sentiu um arrepio que não vinha do frio.

Jekyll então se levantou, tentando retomar o tom leve da conversa:
— Prometa-me apenas uma coisa. Se algum dia eu... desaparecer... cuide para que tudo o que deixei vá para o Sr. Hyde. É meu último pedido.

Utterson olhou-o fixamente, sem conseguir disfarçar a angústia.
— Henry, você fala como um homem que teme a própria sombra.

O médico sorriu novamente, mas o sorriso agora parecia de dor.
— Talvez seja isso mesmo, meu velho amigo. Todos temos uma sombra. Alguns apenas aprendem a conviver com ela melhor do que outros.

Na saída, o advogado lançou um último olhar para o anfitrião.
Jekyll acenou calmamente, mas assim que Utterson virou as costas, o médico correu para o laboratório.
Trancou a porta, apoiou-se na mesa e respirou com dificuldade. As mãos tremiam.

“Não hoje”, murmurou. “Por favor, não hoje...”

Mas a mudança já começara.
E lá fora, no beco escuro, alguém esperava.

Capítulo 4 – O Assassinato na Névoa

Passaram-se quase um ano desde o jantar entre Utterson e o Dr. Jekyll.
Durante algum tempo, parecia que o médico havia recuperado a calma. Recebia amigos, trabalhava em silêncio e até sorria com sinceridade. O advogado, aliviado, começou a acreditar que Hyde havia desaparecido de vez.

Mas a paz em Londres raramente dura.

Numa noite de outono, a cidade dormia coberta por uma neblina grossa como fumaça de carvão. As lâmpadas das ruas pareciam pequenas estrelas perdidas no escuro. Um vento úmido soprava, carregando o cheiro do rio e o som distante das carruagens.

Uma criada, que morava em uma casa alta de esquina, observava pela janela a rua quase deserta. Estava acostumada ao silêncio, quando algo a fez prender a respiração:
um homem caminhava apressado, com um cajado nas mãos, e um outro o seguia de perto.

O primeiro era um senhor elegante, de boa aparência, que parecia ter pressa. O segundo, mais baixo e de passos curtos, tinha algo de inquietante no andar — como se carregasse dentro de si uma raiva contida.

A criada reconheceu o homem menor. Já o vira antes. Nunca esqueceu seu rosto, porque ele causava medo — sem motivo aparente.

De repente, ouviu gritos.
O pequeno homem começou a bater no outro com o cajado, uma, duas, três vezes — até que o barulho se tornou horrível demais para ser contado. A vítima caiu, imóvel, e o agressor continuou golpeando, mesmo quando já não havia vida para ferir.

O cajado partiu-se em dois, e o assassino — suando, arfando — jogou os pedaços no chão. Depois olhou ao redor, como um animal farejando perigo, e sumiu na neblina.

A criada tremia.
Correu até a rua, chamou vizinhos, e em minutos a cena foi tomada por gente. No chão, o corpo de um homem respeitável — um parlamentar, conhecido como Sir Danvers Carew — estava irreconhecível.

A polícia foi chamada, e um cartão de visita encontrado no bolso revelou o nome de Utterson.

Na manhã seguinte, o advogado foi acordado por batidas firmes à porta. O inspetor entrou, pálido, com o cartão nas mãos.
— Lamento incomodar, senhor, mas esta foi a única pista que encontramos.

Quando mostraram o pedaço do cajado, Utterson sentiu o estômago revirar. Reconheceu de imediato.
— Isso pertence a... — ele hesitou — ao Dr. Jekyll.

O inspetor levantou as sobrancelhas.
— Então talvez o doutor saiba algo.

Foram juntos à casa de Jekyll. O mordomo, com expressão tensa, conduziu-os até o gabinete. O médico parecia abatido, o rosto coberto de suor.
— Sim — disse ele com voz fraca. — Eu dei aquele cajado ao Sr. Hyde há muito tempo.

— E o senhor sabe onde ele está agora? — perguntou o inspetor.

Jekyll balançou a cabeça.
— Não, e espero nunca mais saber. Ele me deixou... e não voltará.

Mas Utterson percebeu o tremor nas mãos do amigo e o olhar fugidio, como o de quem carrega culpa.

O inspetor saiu com os homens da lei, prometendo procurar o assassino.
Utterson ficou por último, e quando estavam a sós, perguntou:
— Henry, diga-me a verdade. Hyde matou aquele homem?

Jekyll virou-se para a janela, sem responder.
Depois murmurou:
— Foi o meu erro, Utterson. Tudo isso começou comigo.

O advogado tentou falar, mas o doutor ergueu a mão.
— Por favor, vá. Preciso descansar.

Quando Utterson saiu, Jekyll caminhou até o espelho. O reflexo o observava com algo entre ódio e piedade.
Ele levou as mãos ao rosto e sussurrou:
— Eu o criei. E agora ele é mais forte do que eu.

Lá fora, a chuva começou a cair.
E com cada gota que batia na vidraça, a cidade parecia se afundar um pouco mais na sombra.

Capítulo 5 – As Noites de Laboratório

            O inverno deu lugar a uma primavera sem brilho. Londres parecia coberta por uma luz doente, e mesmo o sol, quando aparecia, parecia cansado.
            Desde o assassinato de Sir Danvers Carew, o nome de Hyde sumiu das conversas e dos jornais. Ninguém mais o vira. Parecia ter desaparecido do mundo — e, mesmo assim, todos continuavam a sentir medo, como se ele ainda rondasse as ruas invisível.

            O Dr. Jekyll, por outro lado, voltou a aparecer. Durante alguns dias, recebeu visitas, mostrou-se educado, até alegre. Os criados diziam que o patrão estava “melhorando”. Mas Utterson percebia outra coisa: o riso de Jekyll era mais alto do que o normal, e seus gestos, mais rápidos — como se tentasse fingir que o pesadelo havia terminado.

            Certa tarde, o advogado foi visitá-lo. Encontrou-o no gabinete, escrevendo algo com as mãos trêmulas.
            — Meu amigo — disse Utterson —, fico aliviado por vê-lo bem.

            Jekyll levantou a cabeça lentamente.

            — Bem? — repetiu. — Sim... digamos que sim. O mal se foi.

            Utterson observou os frascos espalhados sobre a mesa. Havia líquidos de cores diferentes, um deles ainda fervendo levemente.
            — Continuando suas experiências? — perguntou o advogado, com um sorriso forçado.

            O doutor hesitou.
            — Apenas... trabalho de laboratório. Coisas sem importância.
            Mas havia algo em seu tom que denunciava o contrário.

            De repente, o mordomo entrou, pálido.
            — Senhor, peço que o doutor descanse. O senhor não dorme há duas noites.

            Jekyll virou-se com um olhar impaciente.
            — Não se preocupe, Poole. O que faço aqui é mais importante do que o sono.
            Depois, ao notar o olhar assustado de Utterson, tentou suavizar a voz:
            — Não há motivo para preocupação, meu amigo. O Sr. Hyde não voltará.

            Utterson assentiu, mas o medo não o deixava. Naquela noite, ao voltar para casa, ele teve um pressentimento terrível: Jekyll estava mentindo.

            As semanas seguintes foram marcadas por mudanças estranhas. Os criados começaram a cochichar que o doutor não comia direito e que, às vezes, era possível ouvir risadas baixas e gemidos vindos do laboratório.
            Poole contou que certa vez bateu à porta e uma voz respondeu — uma voz rouca, grossa, que não parecia a de Jekyll.

            “Quem está aí?”, perguntou Poole.
            “Vá embora!”, gritou a voz de dentro. “Não entre!”

            Desde então, ninguém mais ousou se aproximar.

            À noite, a casa ficava mergulhada em silêncio, exceto por ruídos metálicos e o som de vidros se quebrando.
            Às vezes, uma luz azulada escapava pelas frestas da janela, tremendo como fogo de velas em agonia.

            Utterson tentou visitá-lo novamente, mas o mordomo impediu.
            — O doutor está ocupado, senhor. Pediu para não ser incomodado.

            O advogado voltou para casa, inquieto. Havia algo de doente naquela casa. Algo vivo.

            Certa madrugada, Jekyll escreveu em seu diário, as mãos manchadas de tinta e suor: “Pensei ter me libertado dele. Enganei-me. Agora é ele quem chama por mim — não de fora, mas de dentro.
            Cada vez que tento dormir, sinto o seu riso na minha mente. Já não sei mais onde termina Jekyll e onde começa Hyde.”

            Um trovão estourou sobre Londres. Lá fora, o vento rugia. Dentro do laboratório, o doutor fitava o espelho e via o reflexo sorrir — um sorriso que não era o seu. Jekyll recuou, apavorado. Pegou um frasco, derramou o líquido na taça e o bebeu de um só gole. Seu corpo tremeu, os ossos doeram, e a pele pareceu se contorcer sob as veias. Do lado de fora, Poole ouviu um grito. Um grito que não parecia humano. E então... silêncio. Somente o som da chuva batendo no vidro — e uma risada distante, abafada, ecoando do laboratório.

 

 

 

 

Capítulo 6 – O Desaparecimento de Dr. Jekyll

            Os dias que se seguiram foram estranhos na casa do Dr. Jekyll. Os criados andavam de um lado para outro com passos cuidadosos, como se tivessem medo de fazer barulho. A mansão, antes cheia de visitas e médicos renomados, agora parecia um túmulo: silenciosa, fria, vigiada pela sombra de um segredo.

Poole, o mordomo, era o que mais sofria. Ele era leal, sério, e conhecia Jekyll desde os primeiros anos da carreira do doutor. Nunca o vira agir como agora: trancado no laboratório durante horas, falando sozinho, e às vezes respondendo à porta com uma voz que não parecia sua. Mas numa manhã cinzenta, tudo mudou.

            Quando Poole bateu ao laboratório para deixar o café, ninguém respondeu. Nem a voz fraca de Jekyll, nem o rosnado impaciente que surgira nas últimas noites. Silêncio absoluto. Poole chamou mais forte. Nenhuma resposta. Ele tentou abrir a porta, mas estava trancada — por dentro.

            O mordomo, agora pálido, chamou dois criados. Eles cercaram a entrada, tentaram ouvir algo, qualquer coisa. Nada. Nenhum passo. Nenhum arrastar de vidro. Nenhuma respiração pesada.

            — Ele nunca fica tanto tempo sem responder — murmurou Poole, apertando o lenço nas mãos. — Isso não é normal.

            Os criados se entreolharam, inseguros. Um deles, uma mulher idosa que trabalhava ali havia décadas, disse com voz trêmula:

            — Eu ouvi... eu juro que ouvi alguém chorando ontem à noite. Não era o doutor. Aquela voz... não era humana.

            Poole engoliu seco.Até ele, que sempre se mantinha firme, sentiu o medo lhe tocar o fundo do peito. Decidiu então fazer o que temia desde o início: procurar Utterson. Utterson estava em seu escritório quando Poole chegou, ofegante, coberto de um suor frio apesar do clima.

            — Senhor... — disse ele, quase sem fôlego — acho que aconteceu algo terrível na casa. O doutor... desapareceu.

            — Desapareceu? — repetiu Utterson, levantando-se de imediato. — Explique-se, Poole.

O mordomo contou tudo: as noites de risadas estranhas, a voz desconhecida, a porta que Jekyll proibira todos de abrir, e agora o silêncio absoluto.

            — Ele está lá dentro. Eu sei que está — disse Poole, com o olhar fixo no chão — mas não é o doutor que responde. Tenho certeza disso.

            Aquela frase caiu sobre a sala como um peso de chumbo. Utterson hesitou. Por um instante, pensou ser apenas exagero dos criados — medo alimentando imaginação. Mas então lembrou-se do brilho na janela, da sombra estranha que vira semanas antes, e da última conversa com Jekyll, sua voz trêmula, seu sorriso quebrado. Algo terrível estava acontecendo.

            Quando chegaram à mansão, a casa parecia abandonada. Os funcionários estavam reunidos nos corredores, silenciosos. Todos os olhos se voltaram para Utterson como se ele fosse a última esperança.

Poole pegou uma vela e os guiou até a porta do laboratório.

            — Doutor Jekyll? — chamou Utterson, tentando manter a voz firme. — Aqui é Utterson. Abra a porta, por favor.

            Por um momento, nada aconteceu. Então, no fundo da sala, veio uma resposta abafada:

            — Não posso ver ninguém. Vá embora!

            A voz não era de Jekyll. Era mais aguda, tensa, uma voz que parecia estar sendo forçada por uma garganta que não era feita para ela. Poole deu um passo para trás.
            — Está vendo, senhor? Eu disse. Não é ele. Não é o doutor!

            Utterson sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
            — Quem está aí dentro? — perguntou, elevando o tom.

            A resposta veio rápida, irritada:

            — Ninguém que você conheça! Vá! Deixe-me em paz!

            Depois disso, silêncio absoluto. Utterson olhou para Poole. Os dois sabiam: Aquela voz não pertencia a Henry Jekyll. E se o médico estava realmente desaparecido, havia apenas uma pergunta: O que — ou quem — estava trancado lá dentro? Do lado de dentro, uma sombra se movia.

            Uma mão ossuda segurou a borda da mesa. A respiração era pesada, desencontrada. E um sussurro escapou, rouco e vitorioso:

            — Não pense que pode me impedir agora, Jekyll... não pense...

            Um riso baixo ecoou no escuro. E a mansão inteira pareceu estremecer.

 

Capítulo 7 – A Janela

            Alguns dias depois da visita desesperada de Poole, Utterson não conseguiu mais descansar. As palavras do mordomo — “Aquela não é a voz do doutor” — ecoavam em sua mente como um relógio quebrado, repetindo o mesmo som sem parar. Ele decidiu voltar à casa de Jekyll, mas não pela porta principal.
            O advogado queria observar sem ser notado, sem dar tempo para que alguém fingisse estar melhor ou tentasse enganá-lo. Chamou seu primo Enfield e sugeriu que ambos fizessem o mesmo passeio que costumavam fazer aos domingos, passando pelo quintal dos fundos da casa.

            O dia estava frio e claro, mas a luz parecia fraca. A neblina, mesmo fina, deixava tudo sem cor. Chegando ao pátio, eles viram uma grande janela no alto — uma janela que dava para o gabinete do Dr. Jekyll.

            — Veja, ali está ele — murmurou Enfield.

            Jekyll estava sentado perto da janela, com as mãos cruzadas sobre o joelho. Parecia pálido, exausto, como alguém que não dormia havia dias, talvez semanas. Mas forçou um sorriso ao ver os dois.

            — Meus caros amigos — disse Jekyll, com voz baixa. — É bom vê-los. O ar fresco... parece tão distante para mim.

            Utterson deu um passo à frente.
            — Henry, você deveria sair. Caminhar um pouco. A luz faria bem à sua saúde.

            Jekyll desviou o olhar, como se tivesse ouvido uma ideia impossível.

            — Não posso — respondeu ele. — Não posso arriscar... não agora.
            E então completou, quase em sussurro:
            — Mas gostaria muito de conversar com vocês.

            Utterson sorriu, tentando mostrar apoio.
            — Então vamos conversar por aqui mesmo. Nada nos impede de trocar algumas palavras pela janela. Jekyll começou a responder, mas parou de repente. Uma sombra cruzou seu rosto. Seus olhos se arregalaram.
Seu corpo enrijeceu. Era como se algo dentro dele tivesse acordado de repente — algo violento, ansioso, impaciente. Utterson percebeu na mesma hora. O sorriso do amigo desapareceu como se tivesse sido arrancado à força.

            — Henry? — chamou o advogado, sentindo um arrepio na espinha. — O que foi?

            Jekyll levou a mão ao rosto, tentando cobri-lo. Mas não foi rápido o suficiente. Por um segundo — apenas um segundo — Utterson e Enfield viram algo mudar nele: Um tremor no maxilar. Um contorcer dos músculos. Um brilho selvagem nos olhos. Depois, Jekyll deu um grito abafado e desapareceu da janela, como se tivesse sido puxado para trás.

            — Meu Deus! — exclamou Enfield, recuando um passo. — O que foi aquilo?

            Utterson não respondeu. Ficou apenas olhando para a janela fechada, o coração batendo tão forte que parecia querer romper o peito. A luz dentro do gabinete havia sumido. E durante alguns segundos terríveis, eles ouviram — vindo lá de dentro — um som quase inaudível. Um riso. Baixo. Rouco. Animal. Utterson sentiu o sangue gelar.

            — Temos que ir — disse ele, com a voz vacilante. — Agora.

            Andaram rápido, quase correndo, sem olhar para trás. O céu escurecia, e a neblina começava a subir novamente. A janela permanecia fechada. E o que quer que estivesse lá dentro… já não tinha mais o rosto de Henry Jekyll.

 

 Capítulo 9 – O Relato do Dr. Lanyon

            Utterson levou consigo a carta encontrada no laboratório, mas decidiu não abri-la ainda. O advogado seguiu para sua casa, com o pensamento fixo em Hyde morto no chão e Jekyll desaparecido. Sabia que aquela carta era a chave do mistério — mas também tinha consciência de que talvez revelasse algo que nenhum homem deveria saber. Ao chegar, encontrou outra carta sobre sua mesa. A caligrafia era elegante, firme, mas parecia tremer nas curvas das letras. Era do Dr. Lanyon, amigo de longa data.

            “Meu caro Utterson, preciso falar com você imediatamente. Algo terrível aconteceu. Venha antes que eu perca as forças.” — H. Lanyon.

            Um arrepio percorreu a espinha do advogado. Lanyon morava em uma casa ampla, mas Utterson nunca a vira tão silenciosa e tão sombria. A criada abriu a porta com olhos vermelhos de chorar e o conduziu ao quarto. Lanyon estava irreconhecível. O corpo astênico, o rosto afundado, a pele cinzenta. Parecia ter envelhecido vinte anos em apenas algumas semanas.

            — Meu amigo… — murmurou Utterson — o que houve com você?

            Lanyon respirou com dificuldade.
            — Utterson… o que eu vi… o que testemunhei… nenhum homem deveria conhecer. E, no entanto, sou eu quem carrego isso agora — e tocou o peito, como se algo queimasse por dentro.

            O advogado se sentou ao lado da cama.

            — Fale, Lanyon. Preciso entender. Jekyll desapareceu. Hyde está morto. A casa inteira estava mergulhada em horror.

            Lanyon fechou os olhos, como se cada palavra fosse uma ferida aberta.

            — Tudo começou com uma carta de Jekyll — disse. — Uma carta que não deveria ter sido escrita.

            Lanyon pediu que a criada trouxesse uma caixa de madeira trancada. Quando a abriu, retirou um envelope lacrado com o nome de Utterson e outro com seu próprio nome.

            — Aqui… — disse ele, entregando o envelope destinado ao advogado — está a verdade completa de tudo o que vi. Mas não abra agora. Abra apenas quando minha voz se calar para sempre. Só então você entenderá.

            Utterson segurou a carta, atônito.

            — Lanyon… você fala como um homem que…

            — … está morrendo — completou o médico, cansado. — E estou. A verdade que testemunhei foi maior que meu espírito. Foi maior que minha fé na ciência… na lógica… no próprio ser humano.

            Sua mão tremeu enquanto buscava forças para continuar.

            — Jekyll me escreveu pedindo ajuda. Disse que sua vida dependia de mim. Que eu fosse até a casa dele, abrisse seu laboratório com as instruções anexas e levasse um frasco… um frasco cheio de um pó branco… para um homem pequeno e impaciente que viria à minha casa à meia-noite.

            Utterson prendeu a respiração.

            — Esse homem… — disse Lanyon, estremecendo — era Hyde.

            O quarto ficou tão silencioso que parecia que até o ar tinha congelado.

            — Hyde chegou com pressa, os olhos faiscando de algo que não era humano. Disse-me para sentar, para observar. Ele segurou o frasco, misturou o pó com um líquido vermelho e, quando tudo começou a ferver, ele ergueu a taça… Lanyon fechou os olhos. Uma lágrima desceu. — …e bebeu.

            Utterson sentiu o corpo inteiro enrijecer.

            — O que aconteceu?

            Lanyon ergueu os olhos — olhos de um homem que viu o impossível.

            — Ele… começou a se contorcer. A pele se dobrava, os ossos estalavam, o corpo mudava de forma diante de mim. Era como ver uma alma sendo arrancada e recolocada ao mesmo tempo. E então… diante dos meus olhos… Hyde desapareceu.

            Utterson ficou imóvel. Lanyon sussurrou:

            — E no lugar dele… estava Jekyll.

            O advogado levou a mão à boca. O mundo parecia girar.

            — Ele se transformou diante de mim — repetiu Lanyon, com voz quebrada. — A criatura era o próprio Jekyll… e ao mesmo tempo, não era. O que vi destruiu tudo o que acreditava ser real.

            Utterson não conseguiu falar. Apenas encarou o amigo, que agora tremia como uma criança assustada.

            — Isso… isso está me matando, Utterson. E vai matá-lo também… quando você abrir a carta.

            A respiração de Lanyon ficou pesada, irregular.

            — Jekyll… Jekyll trouxe a morte para si mesmo… e para todos nós… Que Deus nos perdoe.

            Foi a última frase audível. O médico fechou os olhos, exausto. Sua mão escorregou, inerte. Utterson soube que aquele era o fim. Ao deixar a casa, o advogado segurava nas mãos duas cartas: uma dele, outra de Jekyll. A cidade parecia ainda mais sombria. A neblina mais espessa. A alma mais pesada. E agora Utterson sabia: a verdade era monstruosa. Mas a revelação completa — a história contada pelo próprio Jekyll — ainda o esperava dentro do envelope selado.

 

Capítulo 10 – A Confissão de Dr. Jekyll

            “Esta é a minha última noite.” É assim que começa a carta deixada sobre a mesa do laboratório. A tinta parece ter sido pressionada com força, como se a mão que escreveu lutasse contra o próprio corpo para registrar as palavras. Utterson abriu o envelope aos poucos, sentindo que cada lacre quebrado trazia consigo um peso que jamais abandonaria sua vida. Sentou-se em sua escrivaninha. Respirou fundo. E começou a ler.

            “Nasci com uma alma dividida. Desde cedo, senti dentro de mim duas forças: uma que desejava ser honrada, e outra que desejava ser livre de consequências. Passei a vida inteira tentando esconder essa segunda parte, e quanto mais a escondia, mais ela me consumia.”

            Jekyll descrevia sua juventude como um período de culpa constante. Era respeitado, admirado, mas vivia com o medo de ser descoberto por causa de desejos e impulsos que não combinavam com sua imagem pública.

            “A necessidade de parecer perfeito me sufocava. Eu era prisioneiro da própria reputação. Comecei a estudar a fundo a moral, a alma, a química do corpo humano — buscando separar o bem e o mal.” Foi então que a ideia terrível surgiu: “Se eu pudesse me dividir em dois… Se pudesse libertar a parte sombria sem destruir a parte virtuosa… Talvez eu encontrasse paz.”

            Jekyll dedicou meses, depois anos, a compor uma mistura de sais, óleos, pós raros e substâncias perigosas. O processo era arriscado, mas ao mesmo tempo fascinante. Ele acreditava que estava à beira de uma descoberta científica que transformaria o mundo. “Quando a poção ficou pronta, tremi ao observá-la.
Mas o desejo de libertação falou mais alto. Bebi.”

            O trecho seguinte fazia Utterson estremecer.

            “A dor era indescritível. Como se meu corpo estivesse sendo quebrado e rearrumado de modo cruel.
Mas quando a transformação terminou… senti um prazer selvagem. Uma liberdade que nunca conhecera.”

Hyde tinha nascido. Mas não como uma simples mudança de aparência. “Hyde era tudo o que eu escondia. Era eu… sem limites. Cada pensamento cruel, cada impulso reprimido, cada desejo proibido — tudo se tornou vivo nele.”

            A princípio, Jekyll acreditou que podia controlar o monstro. Tomava a poção para transformar-se em Hyde e outra para voltar a ser Jekyll. Era um jogo perigoso — mas intoxicante. Até que aquele jogo começou a cobrar um preço.

            “Hyde começou a aparecer sem que eu bebesse a poção. Bastava que eu cochilasse… ou que tivesse um pensamento mau… e lá estava ele, pronto para assumir o corpo.”

            Jekyll descrevia o pânico, as noites em claro, a sensação de ser seguido por si mesmo.

            “O crime cometido por Hyde — a morte daquele homem inocente — foi o limite. Eu tentei parar.
Joguei fora os frascos. Prometi nunca mais tocá-los.” Mas a promessa não durou. “Hyde é como um vício.
Como um veneno doce. Chamava por mim de dentro da minha própria alma.” Aos poucos, Hyde começou a surgir sem controle, sem aviso. Jekyll passou a trancar-se em casa, depois no laboratório, tentando impedir que o mundo visse o monstro que carregava. “E então, uma manhã, acordei… e minhas mãos eram pequenas, magras e deformadas. Eu não era mais Jekyll. Eu era Hyde. Sem ter bebido nada.”

            O terror tomou conta do restante da carta. “A poção que me trazia de volta começou a falhar. Eu precisava de quantidades cada vez maiores. Os sais estavam acabando. Tentei comprar mais… mas o novo lote não funcionou. Percebi, tarde demais, que só aquele primeiro frasco específico continha uma impureza essencial. Sem ela, eu nunca mais voltaria a ser Jekyll.”

            Utterson sentiu o coração acelerar. “A última vez que consegui ser eu mesmo foi quando ainda pude me sentar à janela e conversar com você. Mas Hyde me arrancou dali antes que vocês vissem a transformação.” A letra começava a tremer. “Agora estou trancado no laboratório. Hyde me domina. Escrevo estas linhas durante breves minutos de lucidez, antes que ele tome o corpo novamente.”

            A última parte da carta era quase ilegível, como se tivesse sido escrita às pressas, entre espasmos. “Se encontrarem Hyde morto no chão… saibam que eu morri antes dele. Hyde é minha sombra final. Meu castigo. Minha destruição.”

            A frase final parecia uma despedida ao mundo — e a si mesmo.

            “Que meu fim sirva de aviso: dentro de cada homem existem dois. E alimentar o lado sombrio… é pedir que ele devore tudo o que somos.”

            Utterson baixou a carta com as mãos trêmulas. Por um instante, sentiu que o quarto parecia menor, como se as sombras se aproximassem das paredes.
            A verdade estava ali, nua, devastadora: Jekyll e Hyde eram o mesmo homem. A poção não criara algo novo. Apenas libertara o que sempre existira.

            Lá fora, a neblina cobria Londres mais uma vez. Utterson fechou os olhos. A história havia terminado. Mas o horror… o horror continuaria a ecoar na mente de todos que conheceram Henry Jekyll.

 

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