O Morro dos Ventos Uivantes

 

Capítulo 1 – A Chegada ao Morro dos Ventos Uivantes

Quando o senhor Lockwood decidiu deixar a cidade e buscar refúgio nas colinas do norte da Inglaterra, acreditava que encontraria ali o sossego de que tanto precisava. Desejava isolamento, distância das vozes humanas, e a solidão que os campos abertos pareciam prometer. Foi por isso que alugou uma casa chamada Granja dos Tordos, uma propriedade vizinha ao sombrio Morro dos Ventos Uivantes, pertencente a um homem chamado Heathcliff, que, segundo o corretor, seria seu senhorio.

Lockwood, movido por um misto de curiosidade e cortesia, resolveu fazer uma visita para se apresentar.

A tarde estava cinzenta, o vento soprava impiedoso e as nuvens rastejavam baixas sobre as colinas. O caminho era pedregoso, e o frio parecia cortar a pele como pequenas lâminas invisíveis. Quando finalmente avistou a casa, compreendeu o nome que ela carregava: o vento ali uivava de verdade, assobiando entre as fendas das pedras, como se mil vozes invisíveis se lamentassem há séculos.

A porta era pesada, de madeira escura, adornada por pregos antigos e ferros retorcidos. Lockwood bateu uma, duas, três vezes — e o som ecoou pela casa como um trovão abafado. Um cão latiu do outro lado, e passos pesados se aproximaram.

Quem é? — perguntou uma voz áspera, carregada de desconfiança.
Sou o novo inquilino da Granja dos Tordos. Vim cumprimentar o senhor Heathcliff.
A porta se abriu devagar, e Lockwood foi recebido por um homem de semblante rude, possivelmente um criado. O cheiro de fumaça e umidade escapou para fora.

Entre. — disse o criado, com má vontade. — O senhor está no Morro dos Ventos Uivantes.

Lockwood entrou e teve a sensação de atravessar uma fronteira entre o mundo dos vivos e o das lembranças mortas. O interior da casa era escuro, cheio de sombras que dançavam com o fogo da lareira. Os móveis eram pesados, as janelas pequenas e as paredes, espessas, como se quisessem manter o vento — e o mundo — do lado de fora.

Heathcliff apareceu logo depois.
Não era um homem que se esquecesse facilmente. De pele morena, cabelos negros e olhar profundo, transmitia uma força estranha, quase selvagem. Sua presença parecia carregar uma energia silenciosa, inquietante, como se guardasse dentro de si alguma fúria antiga, contida a duras penas.

Senhor Heathcliff, imagino? — disse Lockwood, estendendo a mão.
Sim. — respondeu ele, com voz baixa. — E o senhor deve ser o novo inquilino. Não esperava visitas.
Perdoe minha ousadia, — replicou Lockwood, tentando soar leve — mas achei que seria apropriado apresentar-me pessoalmente. É raro encontrar vizinhos por estas bandas, e pensei que poderia... bem... fazer amizade.

Heathcliff o encarou por um instante que pareceu longo demais.
Amizade? — repetiu, com um leve sorriso sem alegria. — Não encontrará muito disso por aqui, senhor Lockwood. O vento não é o único que uiva nestes morros.

Lockwood riu, tentando disfarçar o desconforto.
Ora, espero que o senhor não me assuste logo na primeira visita.
Não é o que desejo. Mas há coisas neste lugar que assustam sozinhas.

O jantar foi servido em silêncio. Uma mulher jovem, de expressão fria, colocou o prato diante do visitante sem dizer palavra. Os cães rosnavam embaixo da mesa, e o vento fazia a chaminé gemer. Lockwood sentia-se observado o tempo todo — não apenas pelos olhos humanos, mas por algo invisível, como se o próprio ar tivesse consciência.

Após o jantar, Heathcliff o convidou a sentar perto da lareira.
Então veio buscar paz, — disse ele. — Não imagina o erro que cometeu.
Por quê? — perguntou Lockwood, sorrindo nervosamente. — Paz é tudo que desejo.
Aqui, senhor Lockwood, paz é uma palavra que o vento não conhece.

Quando Lockwood se despediu, o tempo havia piorado. Uma tempestade forte o impediu de voltar à Granja dos Tordos. Heathcliff, a contragosto, mandou prepararem um quarto.

O cômodo ficava no andar superior, isolado, e parecia não ser usado há anos. O ar era frio, e havia um cheiro de mofo e livros antigos. Sobre a mesa, Lockwood encontrou um monte de diários empoeirados. Em uma das paredes, gravado com algo afiado, estava o nome “Catherine Earnshaw”, repetido dezenas de vezes.

Quem seria essa Catherine? — murmurou ele, curioso.

Folheou um dos cadernos e leu algumas frases confusas sobre amor, raiva e solidão. As palavras soavam quase febris, escritas por uma mão que parecia lutar contra a própria sanidade. A chuva batia nas janelas, e o vento começou a soprar mais forte, gemendo como uma alma em agonia.

Por volta da meia-noite, Lockwood acordou com batidas na vidraça. Levantou-se, imaginando que algum galho de árvore estivesse preso ali. Quando se aproximou, uma voz débil o chamou:

Deixe-me entrar… por favor… sou Catherine… está frio lá fora...

Um braço pálido e translúcido atravessou o vidro estilhaçado e agarrou o dele com força gelada. Lockwood gritou, lutando para se soltar, o coração disparado, o pavor subindo-lhe pela garganta.

Solte-me! — berrou ele, tentando afastar o espectro. — Solte-me, criatura infernal!

Num impulso, bateu a janela com toda a força. Quando olhou novamente, não havia nada — apenas o vento e o som distante de um choro.

Na manhã seguinte, ao descer as escadas, contou o ocorrido a Heathcliff. O homem, ao ouvir o nome “Catherine”, empalideceu como quem vê um morto.
O que disse? Catherine? Ela... falou com o senhor?
Sim, à meia-noite. Disse que queria entrar.
Heathcliff levou as mãos à cabeça e murmurou, transtornado:
Catherine... meu amor... você voltou… por que para ele, e não para mim?

Correu até o quarto, abriu as janelas e gritou para o vazio:
Volte para mim! Deixe que o vento te traga de volta! Catherine! Catherine!

Lockwood ficou paralisado. Aquele homem, que parecia feito de pedra, chorava como um condenado. Foi nesse instante que ele percebeu que o Morro dos Ventos Uivantes não era apenas uma casa — era um túmulo de paixões que se recusavam a morrer.

Ao deixar o lugar, Lockwood sentiu o vento sussurrar seu nome.
E pela primeira vez, teve a certeza de que não estava sozinho — nem na estrada, nem em si mesmo.


Capítulo 2 – A Infância de Heathcliff e Catherine

Os dias seguintes à visita de Lockwood ao Morro dos Ventos Uivantes foram marcados por um incômodo que ele não conseguia explicar. Sonhava com vozes, sentia frio mesmo diante do fogo e, por vezes, jurava ouvir passos no corredor, embora morasse sozinho na Granja dos Tordos.
Seu senhorio, Heathcliff, permanecia um enigma: um homem taciturno, educado o suficiente para não ser grosseiro, mas incapaz de esconder um tormento profundo.

Certa manhã, Lockwood adoeceu após uma caminhada nas colinas e ficou de cama por vários dias. Durante esse tempo, foi cuidado por Ellen (Nelly) Dean, sua governanta — uma mulher sensata, de fala mansa, e com um olhar que denunciava ter visto mais tragédias do que qualquer um poderia suportar.

Foi ela quem lhe trouxe chá e silêncio nos primeiros dias. Mas, percebendo a curiosidade crescente do patrão sobre o vizinho e aquela casa assombrada pelo vento, resolveu, certa noite, abrir o coração e revelar o que sabia.

— “O senhor Heathcliff não nasceu aqui, senhor Lockwood. Ele foi trazido de fora, de um lugar que ninguém sabe ao certo. Eu o vi chegar, pequenino, sujo, faminto, mas com olhos que pareciam guardar o inferno e o paraíso ao mesmo tempo.”

Lockwood ajeitou-se na poltrona, fascinado.

— “Então a senhora o conheceu desde o início?”
— “Conheci, sim. Eu era criada do velho senhor Earnshaw, dono do Morro dos Ventos Uivantes antes de Heathcliff. Trabalhei lá a vida inteira, e vi essa casa ruir não por falta de tijolos, mas por causa do coração de quem a habitou.”

Ela respirou fundo, e a chama da vela pareceu vacilar.

— “O que vou lhe contar, senhor Lockwood, é uma história de amor e de perdição. E começou com a chegada de um menino.”

O senhor Earnshaw, homem de fé e temperamento forte, certa vez viajou a Liverpool. Voltou de lá com algo que ninguém esperava — um menino órfão, de origem desconhecida, pele escura, roupas em farrapos e olhos de uma profundidade inquietante.
Chamou-o de Heathcliff e o apresentou à família.

A senhora Earnshaw ficou indignada.
— “Trouxe um ladrão para dentro de casa, é isso?”
Mas o marido, cansado da viagem, respondeu apenas:
— “Trouxe um filho para quem não tem pai. Que Deus me julgue se fiz errado.”

Os dois filhos legítimos, Hindley e Catherine, reagiram de maneiras opostas. Hindley o detestou de imediato, como se a presença do forasteiro lhe roubasse algo invisível — talvez o amor do pai. Já Catherine, curiosa e impulsiva, aproximou-se.

Qual é o seu nome? — perguntou ela, ajoelhando-se diante do garoto.
Ele não respondeu. Apenas a observou, atento, como um animal selvagem que teme o toque.
Tudo bem, — disse ela com um sorriso — não precisa falar. Se quiser, posso ser sua amiga.

E foi.
Desde aquele dia, os dois passaram a andar juntos pelos campos, a subir colinas e desafiar o vento que rugia nas janelas do Morro. Ninguém os separava, e pareciam feitos da mesma matéria — rebeldia, curiosidade e um estranho amor pela liberdade.

Mas a paz durou pouco. O velho Earnshaw adoeceu e, pouco antes de morrer, pediu à esposa que cuidasse do menino “como a um dos seus”. Assim que foi enterrado, Hindley assumiu o controle da casa e transformou Heathcliff em criado.

Você não passa de um intruso, — dizia ele. — Um lixo que meu pai trouxe do esgoto. Lembre-se disso antes de olhar alguém nos olhos.

Catherine tentava defendê-lo, mas Heathcliff, orgulhoso, apenas baixava a cabeça e engolia o ódio.
Não precisa me defender, Cathy. Um dia, eu não serei mais o pobre bastardo da charneca.

As palavras dele soaram como uma promessa.

Os anos seguintes foram duros. Hindley casou-se, encheu a casa de gritos e bebidas, e a mãe morreu cedo. O Morro dos Ventos Uivantes, que antes fora cheio de vida, tornou-se um lugar de ecos e portas batendo. A única alegria era a amizade feroz entre Catherine e Heathcliff — uma amizade que aos poucos se tornava algo mais, ainda sem nome.

Certa tarde, os dois fugiram para espiar os vizinhos ricos, os Linton, que moravam na Granja dos Tordos. Lá, riram das roupas e modos refinados até que o cão da família os atacou. Catherine foi mordida, e os Linton, horrorizados, levaram-na para dentro. Heathcliff, ferido e humilhado, foi expulso com pedradas.

Sai daqui, vagabundo! — gritou o senhor Linton.
Heathcliff, cambaleando, jurou que um dia voltaria àquela casa de outro modo — não como mendigo, mas como alguém que ninguém ousaria humilhar.

Quando Catherine voltou semanas depois, estava transformada. Tinha vestidos elegantes, novas palavras e novos sonhos. Heathcliff a olhou, dividido entre admiração e raiva.

Você não parece mais você.
E você parece não gostar disso.
É porque agora o mundo a quer, Cathy. E eu sei que ele vai tirá-la de mim.

Ela sorriu, tentando disfarçar a dor.
O mundo pode querer o que for. Mas nada vai me afastar de você.

Mas Nelly, ao contar isso, olhou o fogo como quem se recorda de um presságio.

— “Essas palavras, senhor Lockwood, foram a primeira mentira que ela contou — e a última que acreditou. O amor deles era tão forte que acabou virando maldição.”

Lockwood permaneceu em silêncio. O vento lá fora rugia, e parecia repetir o nome dela:
Catherine… Catherine…


Capítulo 3 – O Amor Impossível

As semanas passaram, mas Heathcliff não reconhecia mais a menina que costumava correr com ele pelos campos.
Catherine Earnshaw havia se transformado.
A casa dos Linton lhe dera vestidos, livros e maneiras que pareciam moldar uma nova identidade — uma versão de si mesma que sorria de forma contida e falava com palavras cuidadosas, mas cujo olhar, às vezes, denunciava a saudade da lama, da liberdade e do riso selvagem que compartilhava com ele.

Heathcliff, porém, continuava o mesmo — ou talvez mais endurecido.
O tempo sob o domínio de Hindley o havia transformado num homem calado e ferido. Seus ombros carregavam o peso da humilhação, e seu coração, o peso do amor.
Um amor que não podia se dizer em voz alta, porque o mundo, com suas etiquetas e castas, não aceitava que o criado olhasse para a herdeira com aquele tipo de devoção.

Nelly, sempre atenta, percebeu primeiro o que se passava.

— “Vocês dois brincam com fogo”, — disse ela certa tarde, enquanto limpava a lareira. — “E quando o fogo cresce demais, queima até quem o acendeu.”
Catherine riu, com aquele riso que disfarçava o medo.
— “Não seja tola, Nelly. Eu e Heathcliff somos como o mesmo espírito. Nada pode nos separar.”
— “Nada, exceto o que o orgulho faz com o amor”, — respondeu a governanta, sem levantar os olhos.

Certa noite, Heathcliff ouviu risos vindos do salão. Catherine conversava com Edgar Linton, o jovem vizinho da Granja dos Tordos. O rapaz tinha modos refinados, cabelos dourados e um olhar gentil. Parecia tudo o que Heathcliff nunca fora — e o que o mundo dizia que ele jamais seria.

Encostado à porta, Heathcliff ouviu o nome dele dito em tom doce, e algo dentro de si se partiu.
Mais tarde, quando Catherine o encontrou no estábulo, coberto de poeira e raiva, ele evitou o olhar dela.
— Por que se esconde de mim? — perguntou ela.
— Porque já não sou digno de estar ao seu lado.
— Não diga isso, Heathcliff.
— Digo o que é verdade. Você foi ferida e curada na casa dos Linton, e eu continuei aqui — como um cão, esperando um chamado que nunca vem.

Catherine se aproximou, tocando-lhe o rosto.
— Você é tudo para mim.
— Então por que ri com ele? Por que o defende quando falam de mim?
— Porque o mundo exige que eu sorria, Heathcliff. Mas é a você que meu coração pertence.

Essas palavras o feriram mais do que qualquer insulto. Porque ele sabia: o amor dela era real, mas frágil.
Era um amor que precisava se esconder — e o amor que se esconde apodrece.

Com o tempo, Edgar Linton passou a frequentar o Morro com mais frequência. Era gentil com Catherine e trazia flores e livros. Heathcliff observava em silêncio, mas cada gesto de Edgar lhe parecia uma provocação.
Catherine, dividida, tentava conciliar dois mundos: o da paixão bruta e intensa de Heathcliff e o da delicadeza segura de Edgar.

Uma tarde, depois de uma discussão, Heathcliff desapareceu.
Ninguém o viu sair. Ninguém ouviu o portão se abrir.
Catherine o procurou pelos campos, gritou seu nome até a voz sumir no vento — mas só o uivo do Morro respondeu.

Quando voltou para casa, exausta e coberta de chuva, desabou diante de Nelly.
— Eu o magoei, Nelly... Ele me ouviu.
— Ouviu o quê?
Catherine levou as mãos ao rosto e murmurou:
— Ouviu quando eu disse que me casaria com Edgar. Que seria rebaixar-me casar com Heathcliff. Mas o que ele não ouviu — o que ele nunca saberá — é que meu coração e o dele são o mesmo. Que casar com Edgar é apenas um erro de conveniência... e amar Heathcliff é morrer.

A governanta tentou consolá-la, mas Catherine chorava como se o próprio chão a tivesse traído.
— Ele foi embora, Nelly... e o vento não o traz de volta.

Heathcliff fugiu naquela noite, sem destino, levando apenas o rancor e o amor em frangalhos.
Catherine adoeceu logo depois. Ficava horas olhando pela janela, chamando por ele. Às vezes dizia ouvi-lo, outras vezes jurava que o vento repetia seu nome.

Meses se passaram, e ela acabou aceitando o pedido de casamento de Edgar Linton.
Mas no dia em que colocou o anel, o céu escureceu sobre as colinas.
O vento soprou mais forte, e uma sombra pareceu atravessar os campos, como se o próprio Morro soubesse que algo sagrado havia sido profanado.

Nelly escreveu em seu diário, com a pena trêmula:

“Catherine Earnshaw se casará com Edgar Linton. Mas seu coração pertence a um homem que o mundo rejeitou. O que o amor não pode unir, o destino tratará de destruir.”

Enquanto isso, em algum lugar distante, Heathcliff caminhava sob a chuva, jurando para si mesmo que um dia voltaria.
Não como o garoto humilhado que fora, mas como alguém capaz de fazer todos pagarem — por cada riso, cada desprezo, cada lágrima de Catherine.
O amor, em seu peito, já havia se tornado outra coisa.
Não era mais ternura. Era fogo. Era vingança.

E o vento do Morro dos Ventos Uivantes uivava, como se anunciasse o que estava por vir.

Capítulo 4 – O Retorno de Heathcliff

Três anos se passaram desde a fuga de Heathcliff.
Durante esse tempo, Catherine Linton tentava convencer a si mesma de que havia encontrado paz. A casa dos Linton era clara, ordenada, cercada de jardins e boas maneiras — tudo o que o Morro dos Ventos Uivantes jamais fora. Mas, apesar do novo sobrenome e da aparente serenidade, havia em seus olhos uma ausência, uma sombra que nem os dias ensolarados conseguiam dissipar.

O marido, Edgar, a amava com sinceridade. Era gentil, paciente, e tentava protegê-la do passado. Mas Catherine era feita de vento e desassossego: parte dela ainda vagava pelas colinas, onde um nome ecoava na memória como o som distante de uma promessa quebrada — Heathcliff.

Certa tarde, enquanto Nelly arrumava flores no salão, um cavaleiro aproximou-se pela estrada. O som dos cascos ecoava firme, pesado, como o compasso de um coração que retorna para cobrar o que lhe foi tirado.
Quando a porta se abriu, Nelly deixou cair o vaso de porcelana.

— Heathcliff... — murmurou ela, com espanto e medo.
Ele estava diferente. Mais alto, mais forte, vestia-se com elegância e falava com a calma de quem aprendeu a dominar o próprio ódio. Mas nos olhos, ainda havia o mesmo fogo antigo — agora, contido e mortal.

— Posso ver a senhora Linton? — perguntou ele, sem rodeios.
Nelly hesitou. — Depois de tanto tempo? O senhor acha prudente...
— Não me importa o que é prudente. Vim ver Catherine.

Quando Catherine desceu as escadas e o viu, o mundo pareceu parar.
Nenhum dos dois falou por alguns segundos. O vento soprou pelas janelas abertas, como se o Morro tivesse enviado um sopro para anunciar a tragédia que voltava.

— Heathcliff... é mesmo você?
— Sou o que restou de mim, Cathy. E você? Ainda é minha?
Ela riu, mas os olhos marejaram.
— Não diga isso. Sou casada.
— Casada, mas não livre. O que está entre nós não se apaga com um anel.

Nelly, de canto, sentia o peso do que se formava.
A presença de Heathcliff reacendia algo que o tempo não domara — uma chama que queimava com mais força por ter sido sufocada.

Edgar Linton, ao saber da visita, chegou logo depois. Recebeu Heathcliff com frieza, embora tentasse manter a polidez.
— Ouvi que o senhor prosperou, Heathcliff. Alegro-me por isso.
— Prosperar é pouco. Voltei para recuperar o que é meu.
Edgar empalideceu. — E o que seria isso?
— O que o senhor tomou sem merecer.

A tensão entre os dois era como o ar antes de uma tempestade. Catherine, desesperada, interveio.
— Parem! Por Deus, não falem assim!
Mas era tarde: a guerra silenciosa estava declarada.

Nos dias seguintes, Heathcliff passou a visitar o Morro dos Ventos Uivantes, agora decadente. Hindley, destruído pelo vício e pelas dívidas, o recebeu com ironia.
— Então o bastardo volta rico! O que quer, Heathcliff? Rir de mim?
— Nada disso. Quero ajudá-lo. Posso emprestar-lhe dinheiro.
— Dinheiro? De você?
Heathcliff sorriu. — Dinheiro compra tudo, Hindley. Até mesmo o que foi tirado à força.

E assim começou sua vingança. Aos poucos, tornou-se credor de Hindley, dono de suas dívidas, de suas terras e, por fim, de sua alma.
O Morro dos Ventos Uivantes passou a ser, novamente, dele — não por herança, mas por conquista.

Nelly percebeu cedo: o homem que voltara não era o mesmo.
O garoto apaixonado morrera na fuga. O que regressara era um espírito movido por ódio, perda e desejo de poder.

Uma noite, Heathcliff apareceu na casa dos Linton.
A chuva caía forte, e Catherine correu até a varanda ao vê-lo.
— Você enlouqueceu! Se Edgar souber...
— Que saiba. Vim porque não aguento mais. Passo as noites ouvindo o vento e jurando que é sua voz me chamando.

Ela estremeceu.
— Heathcliff, eu tentei esquecer. Juro que tentei. Mas é como tentar deter o mar com as mãos.

Ele segurou o rosto dela entre as mãos.
— Então não lute. Deixe o que é nosso ser o que sempre foi.

Mas antes que os lábios se encontrassem, Nelly entrou, assustada.
— Parem! Isso é loucura! Vocês vão se destruir!
Catherine afastou-se, chorando.
— Ele já me destruiu, Nelly. Só ainda não percebeu.

Com o tempo, a saúde de Catherine começou a se deteriorar.
O corpo frágil não suportava a guerra que a alma travava.
Edgar tentava poupá-la de qualquer visita de Heathcliff, mas ela o via mesmo sem vê-lo: nas sombras, nos sonhos, nas tempestades noturnas.

Heathcliff, por sua vez, não conseguia mais viver longe dela.
Certa noite, murmurou a Nelly:
— Se ela morrer, eu morrerei também. Não em corpo, mas em espírito. E vagarei por este morro até que ela me perdoe — ou me amaldiçoe para sempre.

Nelly não respondeu. Sabia que o destino deles já estava selado.

O Morro dos Ventos Uivantes voltou a uivar como nos tempos antigos.
As janelas batiam, e os criados juravam ouvir passos na noite.
Heathcliff caminhava sozinho pelos corredores, como um homem que conversava com fantasmas.
E do outro lado das colinas, Catherine tossia, febril, chamando por ele em delírio.

“Eles se amam como o vento ama o precipício: correndo em direção à queda, incapazes de parar.”

Era o início do fim.
O amor de Catherine e Heathcliff, agora, não buscava mais união — buscava destruição.

Capítulo 5 – Tragédia e Loucura

            Os dias seguintes ao retorno de Heathcliff foram de tormento. Nada mais havia de paz na casa dos Linton, e o coração de Catherine parecia lutar entre dois mundos. De um lado, o amor calmo e protetor de Edgar; do outro, a tempestade viva que era Heathcliff. O corpo de Catherine já dava sinais do que a alma sofria. Seu rosto empalidecia, as mãos tremiam e, às vezes, ela passava horas olhando pela janela, perdida nas lembranças. A antiga Catherine, viva e impulsiva, agora parecia uma sombra de si mesma. Numa tarde chuvosa, Nelly encontrou-a sentada perto da lareira, com os olhos marejados.

            — Senhora, a senhora precisa descansar.

            — Descansar? Não posso. Há um peso sobre mim, Nelly. Como posso descansar se meu coração vive dividido?

            — O senhor Linton a ama, e o senhor Heathcliff…

            — Heathcliff é o meu eu fora de mim. Quando ele sofre, eu sofro. Quando ele some, sinto como se parte de mim fosse arrancada.

            Nelly tentou consolá-la, mas sabia que não havia cura para um amor assim. Era um amor que queimava de dentro para fora, que não se contentava em existir — precisava possuí-la inteira. À noite, Catherine teve um acesso de febre. Chamava por Heathcliff entre delírios. Edgar ficou ao lado da cama, tentando refrescar-lhe a testa com panos úmidos, mas ela o empurrou, chorando:

            — Por que o trouxe de volta, Nelly? Por que ele voltou? Eu estava aprendendo a viver sem respirar. Agora… agora nem viver eu sei mais.

            O médico foi chamado, mas nada adiantava. Catherine começou a misturar sonho e realidade. Dizia ouvir o vento sussurrando seu nome, via o Morro dos Ventos Uivantes nas paredes e dizia que Heathcliff a chamava do lado de fora.

            — Ele está vindo. Eu o sinto. O vento me contou.
            Nelly tentava acalmá-la, mas ela parecia flutuar entre a vida e a morte. Naquela mesma noite, Heathcliff entrou escondido pela porta lateral. Nelly, assustada, tentou impedi-lo:

            — O senhor vai matá-la se entrar! Ela está muito fraca!
            — Se morrer, morre em meus braços. É o único lugar onde ela ainda pode descansar.

            Quando Catherine o viu, abriu um sorriso leve, quase infantil.
            — Você veio… eu sabia que viria.
            — Você me chamou, Cathy. Eu ouvi. Nenhum vento seria capaz de me calar.

            Os dois ficaram frente a frente. Ela, pálida e febril; ele, tomado por uma dor que o fazia tremer. Heathcliff segurou-lhe o rosto com ternura e desespero:

            — Por que me destrói assim? Por que me ama e me abandona?

            — Eu não te abandonei. Foi o mundo que nos separou. Eu te amo, Heathcliff… com tudo o que sou… mas esse amor é maior do que nós dois.

            — Então me amaldiçoe! — gritou ele. — Me amaldiçoe, mas não me esqueça! Nunca!
            Catherine o olhou com os olhos úmidos e sussurrou:
            — Como poderia esquecer o que é parte de mim? Se eu morrer, ficarei presa a você. Nenhum céu me aceitará sem você ao meu lado.

            Nelly, de canto, cobria o rosto, chorando em silêncio. O amor deles, mais uma vez, rompia todos os limites — até o da razão. Pouco depois, Catherine tossiu, ofegante. Heathcliff a segurou, desesperado.
            — Cathy! Fique comigo! Não me deixe, por Deus!
            Mas ela sorriu, tocou o rosto dele e murmurou:
            — Você me encontrará no vento… e eu estarei lá, sempre.

            Então, o corpo de Catherine ficou imóvel. Heathcliff encostou a testa na dela e gritou — um grito que Nelly nunca esqueceu. Foi um som que parecia vir de todas as dores do mundo.

            — Volte para mim, Catherine! Volte e me atormente! Prefiro seu fantasma ao silêncio

            Nos dias seguintes, Heathcliff vagava sem rumo. Diziam que ele falava sozinho, que andava pelas colinas em meio à neblina, como se esperasse ouvir a voz dela. Às vezes, ficava horas diante da janela aberta, murmurando o nome “Cathy”, pedindo ao vento que o trouxesse de volta. Edgar Linton chorava em silêncio, e a casa dos Linton nunca mais teve alegria. Mas o Morro dos Ventos Uivantes... esse voltou a uivar como antes — talvez porque um amor, quando não encontra paz na vida, permanece rondando entre os vivos.

            “E dizem que, nas noites de tempestade, duas sombras são vistas caminhando juntas nas colinas — uma mulher de cabelos soltos e um homem de olhar perdido. E que o vento, ao passar, repete o mesmo nome: Catherine.”

Capítulo 6 – A Nova Geração

            A morte de Catherine deixou um vazio tão profundo que parecia ter contaminado os próprios alicerces das duas casas — a dos Linton e a dos Earnshaw. Nada mais florescia, e a paisagem parecia sempre coberta por uma névoa que escondia o sol. Heathcliff, devastado, vagava pelo Morro como um espectro. O homem altivo que retornara cheio de força agora era um corpo habitado por um único sentimento: vingança.
            Não apenas contra os vivos… mas contra a própria vida. Ele nunca perdoou Edgar por ter “roubado” Catherine. Nunca perdoou Hindley por ter destruído sua infância. E nunca perdoou o destino por ter lhe arrancado o único amor que teve. Era como se tudo o que restava agora fosse devolver ao mundo a dor que o mundo lhe dera.

            Com a morte de Catherine, Edgar recolheu-se a uma tristeza silenciosa. Já Hindley, totalmente vencido pelo álcool e pela culpa, afundou de vez. Heathcliff aproveitou cada fraqueza dele. Comprou dívidas, tomou terras, registrou empréstimos — sempre com um sorriso frio. À noite, quando o vento arranhava as janelas, ouvia-se Hindley gritar e quebrar garrafas no chão. Nelly dizia que era culpa, medo e desespero. Outros criados sussurravam que era o fantasma de Catherine rondando as paredes.

            Heathcliff, porém, nunca se incomodava. Sentava-se impassível na cadeira antiga do senhor Earnshaw, como se tivesse finalmente tomado o trono que sempre lhe fora negado. Quando Hindley morreu, não restou nada: nem casa, nem honra, nem paz. Todas as dívidas foram transferidas para Heathcliff — e o Morro dos Ventos Uivantes tornou-se oficialmente dele. Do casamento de Hindley restara um único legado: o pequeno Hareton, um menino de rosto forte e olhos vivos. Herdaria o Morro por direito… mas Heathcliff, com um prazer cruel, o transformou em criado.

            — Ele terá a mesma vida miserável que tive, — dizia Heathcliff.
            — E me amará, assim como eu amei quem me destruiu.

            E assim foi. Hareton cresceu sem educação, sem carinho e sem futuro. Heathcliff o tratava como Hindley havia tratado Heathcliff na infância: com desprezo e violência. Mas o destino é estranho… Hareton, em vez de odiá-lo, passou a admirá-lo — como um cão admira o dono que o maltrata. Heathcliff via nessa devoção uma vingança perfeita: fazer o filho de Hindley amar o homem que arruinara seu pai.

            Na Granja dos Tordos, Edgar criava Cathy, filha de Catherine. A menina era linda, inteligente e curiosa — mas tinha o temperamento da mãe: selvagem e livre. Edgar tentava poupá-la de tudo o que lembrasse Catherine ou Heathcliff. Falava pouco da mãe. Nunca falava do Morro. E dizia apenas que aquela casa distante era “um lugar que não convém ser visitado”.

            Cathy cresceu em meio às flores e luzes da Granja, mas com um brilho inquieto nos olhos — o mesmo brilho que Catherine tinha ao olhar para o vento. Havia nela uma energia que parecia pedir por horizontes maiores do que aqueles jardins perfeitos. Às vezes, Nelly a encontrava olhando para as colinas com uma expressão estranha.

            — O que vê aí, menina?

            — Sinto que tem algo lá. Como se alguém me chamasse.

            Nelly engolia seco.O destino, sabia ela, tinha memória longa — e gostava de repetir histórias.

            Cathy cresceu sem saber que tinha um tio vivo — e que esse tio era o homem que destruíra a vida de sua mãe. Mas o mundo não pode impedir que o passado encontre o futuro. E uma tarde, curiosa e desobediente, Cathy saiu para explorar as colinas. Caminhou até onde Edgar sempre proibia. E encontrou, por acaso, os portões do Morro dos Ventos Uivantes. Hareton foi quem a viu primeiro. Um rapaz forte, sujo e rude, mas com olhos que carregavam bondade abafada. Cathy recuou assustada.

            — Quem é você?

            — O dono… ou talvez nada, — respondeu ele, confuso.

            — O que significa isso?

            — Significa que alguém me tirou tudo e me deixou só com a obediência.

            Antes que Cathy pudesse perguntar mais, o portão se abriu com violência: Heathcliff estava ali. Quando viu a menina, seu rosto endureceu — depois suavizou com algo parecido com surpresa. Ela era o retrato vivo de Catherine. Os mesmos olhos. A mesma força. A mesma alma. Heathcliff sorriu, não de alegria, mas de um triunfo silencioso.

            — Então você veio até mim, Cathy… assim como sua mãe sempre voltava. O destino tem um senso de humor cruel.

            Cathy não entendeu. Mas Nelly, ao encontrá-la e arrastá-la de volta, entendeu perfeitamente: o ciclo havia recomeçado. Heathcliff observou-as partir com o vento batendo em seu rosto. E murmurou:
            — Se a mãe escapou de mim pela morte… a filha não escapará pela vida.

            A partir daquele dia, o Morro dos Ventos Uivantes voltou a estremecer. O vento uivava mais alto. E a nova geração caminhava, sem saber, para o mesmo abismo que tragara os anteriores.

 

Capítulo 7 – O Fim do Ódio

            As semanas que se seguiram à primeira visita de Cathy ao Morro dos Ventos Uivantes trouxeram uma inquietação invisível para todos os que viviam entre as colinas. Havia movimento nas janelas, portas batendo na madrugada e passos que ninguém podia explicar. Nelly dizia que era o vento. Heathcliff dizia que era Catherine. Cathy, proibida pelo pai de voltar ao Morro, fingia obedecer. Mas a curiosidade era mais forte que o medo. E uma tarde, quando Edgar descansava, ela escapou novamente e encontrou Hareton tentando arrumar o muro quebrado.

            — Você não deveria estar aqui, — disse ele, sem coragem de expulsá-la.
            — Nem você deveria ser tratando como um criado, — respondeu ela, olhando-o nos olhos.
            Hareton ficou sem palavras. Ninguém jamais falava assim com ele. Era o primeiro fio de uma história que ainda se tecia.

            Enquanto a jovem Cathy explorava um mundo que desconhecia, Heathcliff começava a perder o controle sobre o próprio espírito. Já não dormia. Já não comia. Passava horas sozinho, em lugares onde ninguém ousava entrar. Nelly encontrou-o certa noite parado no quarto de Catherine, olhando fixamente para a janela quebrada.

            — O que faz aqui, senhor Heathcliff?

            Ele não virou o rosto.

            — Espero.

            — Esperando o quê?

            — Que ela venha.

            Nelly sentiu um arrepio.

            — A senhora Catherine está morta há anos…

            — Mortos não me assustam. Os vivos, sim.

            E então fez uma confissão:

            — Nelly, às vezes vejo o rosto dela refletido no vidro. Outras vezes, sinto sua mão tocar minha. Ela me chama. Está mais perto a cada dia.

            Nelly, tomada de medo, recuou. Heathcliff estava cruzando a fronteira entre a vingança e a loucura — e algo nele parecia ansioso por isso.

            Enquanto Heathcliff caía em ruínas, Hareton e Cathy aproximavam-se. O rapaz, apesar da vida dura, tinha uma bondade silenciosa que a atraía. Cathy, por sua vez, era a primeira luz que surgia na vida dele — uma luz que iluminava até o lugar mais escuro do Morro. Eles começaram a conversar escondido. Pequenas conversas. Risos tímidos.
            — Você sabe ler? — perguntou Cathy um dia.
            — Não. Ensinaram-me a obedecer, não a aprender.
            — Então eu ensino.
            Hareton sorriu pela primeira vez em muitos anos. O elo que começava ali era o oposto do que Catherine e Heathcliff viveram. Era delicado. Era lento. Era luminoso. E esse detalhe, aparentemente simples, foi o que começou a quebrar Heathcliff por dentro. Ele percebeu algo mudando. Hareton não estava mais sob seu controle. Cathy não tinha medo dele. E o pior: suas feições, seus gestos e seus silêncios o lembravam Catherine em cada instante. Heathcliff começou a evitar os dois.
            Sentia-se exausto, como se o próprio corpo estivesse sendo drenado por algo invisível. Caminhava pelas colinas chamando o nome de Catherine. Às vezes ria sozinho. Às vezes chorava como um homem derrotado.

            — Ela está mais perto, — repetia. — Está me esperando. E não posso demorar.

            Ele já não via diferença entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

            Uma noite, durante uma tempestade, Nelly encontrou Heathcliff molhado, pálido e tremendo, parado diante da porta.
            — O senhor precisa descansar!
            Heathcliff sorriu — um sorriso triste, quase infantil.
            — Cathy e Hareton… parecem felizes.
            — Sim. Estão crescendo juntos.
            — Então minha vingança acabou.

            Nelly segurou o ar. Aquela frase… Saíra da boca do homem que dedicou a vida inteira ao ódio. Heathcliff caminhou até o quarto onde Catherine morrera. Olhou em volta como se reconhecesse cada sombra.

            — Não há mais nada para mim neste mundo. A única razão pela qual vivi se foi.
            — Mas o senhor ainda tem a jovem Cathy e Hareton…
            — Eles são do mundo. Eu pertenço a Catherine.

            Então ele se deitou na cama onde Catherine dera seu último suspiro. Fechou os olhos. E pela primeira vez, parecia em paz.

            Dias depois, Nelly o encontrou morto. Os olhos estavam abertos — e havia neles um brilho estranho. Não de horror. Mas de alegria. A janela estava aberta. O vento entrava com força, e Nelly teve a certeza — absoluta — de que duas vozes sussurravam juntas lá fora. Os criados disseram que viram, na noite anterior, duas figuras caminhando pelas colinas: um homem de cabelos escuros e uma mulher com vestido leve, de mãos dadas, desaparecendo na neblina.

            Foi assim que terminou a vida de Heathcliff: não com vingança, mas com reencontro.

            Com a morte dele, tudo mudou. Hareton herdou o Morro. Cathy herdou a Granja. E, juntos, decidiram unir as duas propriedades — não por vingança, mas por amor. Pela primeira vez, o Morro dos Ventos Uivantes teve risos em vez de gritos. Teve luz em vez de sombras. Teve vida em vez de luto. E dizem que, nas noites silenciosas, o vento, que antes uivava, agora sopra suave… como se finalmente tivesse encontrado descanso.


Guia de Personagens

1. Heathcliff

  • Menino órfão encontrado nas ruas e levado ao Morro pelo Sr. Earnshaw.
  • Cresce sendo humilhado por Hindley e amado profundamente por Catherine.
  • Tem um amor obsessivo, possessivo e destrutivo por Catherine.
  • Sai pobre, volta rico, frio e vingativo.
  • Passa a vida atormentado pela perda de Catherine.
  • Morre acreditando tê-la reencontrado no além.

2. Catherine Earnshaw (Cathy, a primeira Catherine)

  • Filha dos Earnshaw, selvagem, livre, teimosa.
  • Ama Heathcliff com intensidade, mas casa-se com Edgar Linton por status.
  • Vive um conflito entre razão (Edgar) e paixão (Heathcliff).
  • Adoece ao reencontrar Heathcliff e morre jovem, deixando uma filha.
  • Seu espírito continua “presente” no Morro, influenciando tudo.

3. Edgar Linton

  • Jovem educado, gentil e refinado.
  • Casa-se com Catherine e tenta protegê-la das emoções violentas.
  • Representa o amor seguro, pacífico, mas sem intensidade.
  • Após a morte da esposa, dedica-se totalmente à filha.

4. Hindley Earnshaw

  • Irmão de Catherine.
  • Sente ciúme de Heathcliff e o transforma em criado.
  • Cai no vício após a morte da esposa e perde tudo para Heathcliff.
  • Morre arruinado e sem dignidade.

5. Nelly Dean (Ellen Dean)

  • Governanta da família Earnshaw e depois da família Linton.
  • Testemunha tudo desde a infância dos personagens.
  • É narradora de grande parte da história (na versão original e adaptada).
  • Sensata, observadora, mas às vezes omite, julga e influencia sem perceber.

6. Hareton Earnshaw

  • Filho de Hindley.
  • Deveria ser o herdeiro legítimo do Morro.
  • Heathcliff o cria como criado, repetindo a crueldade que sofreu.
  • Cresce rude e sem educação, mas com bom coração.
  • Torna-se o grande símbolo da redenção.

7. Cathy Linton (a segunda Catherine)

  • Filha de Catherine e Edgar.
  • Parecida com a mãe na beleza e energia, mas mais doce.
  • Cresce protegida, sem conhecer a história anterior.
  • Aproxima-se de Hareton e, juntos, quebram o ciclo de ódio.

8. Lockwood

  • Inquilino da Granja dos Tordos.
  • Visita Heathcliff e vivencia eventos estranhos.
  • É quem ouve toda a história contada por Nelly.

 

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